Valeriana para gatos: efeito, tipos de reação e cuidados
Muitos tutores conhecem a erva de gato (catnip, Nepeta cataria) e se divertem com a reação inesperada que ela provoca nos felinos. O que pouca gente sabe é que existe outra planta com efeito parecido, e por vezes até mais intenso, chamada valeriana (Valeriana officinalis). O cheiro forte e um pouco terroso da raiz dessa planta desperta em boa parte dos gatos comportamentos de excitação, rolar no chão, esfregar o focinho, babar e, em seguida, um estado de relaxamento que costuma durar de dez a trinta minutos.
Apesar de ser uma planta amplamente estudada na medicina humana por suas propriedades calmantes, no gato a história é diferente: o efeito inicial é estimulante e só depois vem a calma. Neste artigo, você vai entender o que é a valeriana, por que alguns gatos reagem e outros ignoram, qual a duração típica da reação, como usar com segurança e quando é melhor evitar. O conteúdo é técnico, mas escrito em linguagem acessível para que você, tutor, consiga aplicar o conhecimento no dia a dia.
Importante: este material é informativo e não substitui a consulta com médico veterinário. Para qualquer dúvida sobre o comportamento ou a saúde do seu gato, procure um profissional registrado no CRMV-BR.
O que é a valeriana (Valeriana officinalis)

A Valeriana officinalis é uma planta herbácea perene da família Caprifoliaceae, nativa da Europa e de partes da Ásia. Ela cresce em terrenos úmidos e sombreados, atinge entre sessenta centímetros e um metro e meio de altura, e produz pequenas flores rosadas ou brancas. A parte mais utilizada, tanto na fitoterapia humana quanto no uso veterinário felino, é a raiz, onde se concentram os compostos voláteis responsáveis pelo aroma intenso e pelos efeitos fisiológicos.
Composição química relevante para gatos
A raiz da valeriana contém dezenas de substâncias, mas três grupos merecem destaque quando o assunto é o comportamento felino:
- Ácidos valerênicos (valerenic acid e derivados): responsáveis por parte do efeito sedativo observado em humanos e pelo aroma característico da planta.
- Actinidina: um alcaloide volátil com estrutura semelhante à nepetalactona.
- o composto ativo do catnip.
- Ésteres e óleos essenciais iridoides: contribuem para a volatilidade do aroma.
- que chega ao sistema olfativo do gato em baixa concentração.
A actinidina é especialmente importante, pois estudos sugerem que ela se liga aos receptores olfativos acessórios do gato, localizados no chamado órgão vomeronasal (órgão de Jacobson), localizado no céu da boca. Esse sistema é diferente do olfato tradicional e está envolvido na análise de feromônios e de compostos químicos com significado social ou reprodutivo.
Diferença entre valeriana e catnip
Embora muitas vezes sejam tratados como sinônimos, catnip e valeriana são plantas diferentes, com compostos ativos diferentes, embora com efeitos comportamentais parecidos em gatos sensíveis.
| Característica | Catnip (Nepeta cataria) | Valeriana (Valeriana officinalis) |
|---|---|---|
| Família botânica | Lamiaceae | Caprifoliaceae |
| Composto ativo principal | Nepetalactona | Actinidina e ácidos valerênicos |
| Parte usada | Folhas e flores secas | Raiz seca |
| Aroma | Mentolado, herbal | Terroso, forte, pouco agradável para humanos |
| Resposta em gatos | Estimulação seguida de relaxamento | Estimulação mais intensa, seguida de relaxamento |
| Sensibilidade genética | Aproximadamente 60 a 70 por cento dos gatos | Aproximadamente 50 a 75 por cento, dependendo da fonte |
A semelhança comportamental entre as duas plantas se explica justamente pela estrutura química próxima da nepetalactona e da actinidina, que ativam vias neurais parecidas no cérebro do gato.
Como a valeriana age no organismo do gato

O efeito da valeriana em gatos sensíveis começa pelo olfato, mas não termina nele. Para entender a sequência de reações, vale dividir o processo em etapas.
1. Captação pelo olfato acessório
Quando o gato sente o aroma da raiz de valeriana, ele geralmente abre a boca levemente e curva o lábio superior para trás, em um movimento chamado de reação de Flehmen. Esse comportamento direciona os compostos voláteis para o órgão vomeronasal, que fica entre o céu da boca e as cavidades nasais. Lá, neurônios sensoriais específicos captam a actinidina e outros voláteis.
2. Ativação de áreas cerebrais específicas
Os sinais chegam ao bulbo olfatório e, em seguida, a áreas do cérebro associadas a emoções e comportamento, como a amígdala e o hipotálamo. Em neuroimagem funcional realizada com catnip, observou-se ativação de regiões ligadas ao sistema límbico, responsável por respostas emocionais e de recompensa. O consenso entre pesquisadores é que a valeriana percorre caminho neural muito parecido.
3. Liberação de neurotransmissores
A estimulação leva à liberação de endorfinas e possivelmente de dopamina, criando uma sensação prazerosa que motiva o gato a repetir o comportamento de investigação, esfregar, lamber e rolar sobre a fonte do aroma.
4. Fase de exaustão e calma
Depois de dez a quinze minutos de atividade intensa, a maior parte dos gatos apresenta uma fase de relaxamento, com sonolência e apatia que pode durar de meia hora a algumas horas, seguida do retorno ao comportamento normal. Essa fase é interpretada como uma resposta compensatória do sistema nervoso após a estimulação inicial.
Quanto tempo dura o efeito da valeriana em gatos
A duração varia conforme o gato, a concentração do composto ativo e a forma de apresentação da planta, mas a sequência costuma seguir um padrão previsível.
| Etapa | Tempo aproximado | Sinais típicos |
|---|---|---|
| Latência (do cheiro à reação) | 30 segundos a 5 minutos | Flehmen, investigação, focinho próximo da fonte |
| Fase ativa | 5 a 15 minutos | Rolar, esfregar, lamber, correr, miar, baba |
| Fase de relaxamento | 20 minutos a 2 horas | Deitar, olhos semicerrados, sonolência |
| Refratariedade | Até 2 horas | Gato ignora a planta mesmo com nova exposição |
A refratariedade é um detalhe importante: depois da exposição, o gato costuma ficar temporariamente indiferente à valeriana. Isso significa que oferecer a mesma planta várias vezes ao dia não potencializa o efeito. O ideal, segundo a literatura especializada, é espaçar as sessões em pelo menos algumas horas, ou mesmo oferecer a planta duas a três vezes por semana no máximo.
Por que alguns gatos não reagem à valeriana
Cerca de metade dos gatos não apresenta reação visível à valeriana, e isso não significa que o gato esteja doente ou triste. A sensibilidade é genética e está ligada à herança de um alelo autossômico dominante, conforme estudos publicados em genética do comportamento felino. Simplificando, o gato precisa ter herdado de pelo menos um dos pais a capacidade de expressar os receptores olfativos que reconhecem a actinidina.
Filhotes com menos de três a seis meses de vida, em geral, ainda não desenvolveram a resposta, mesmo que carreguem o alelo. Gatos idosos também podem ter resposta diminuída por alterações degenerativas no epitélio olfatório.
Se o seu gato nunca reagiu à valeriana, vale considerar:
- Idade: pode ser filhote ou idoso.
- Genética: pais sem o alelo.
- Apresentação da planta: raiz seca moída demais perde compostos voláteis.
- Estresse: gatos muito ansiosos podem inibir a exploração mesmo com a planta disponível.
- Doenças respiratórias: obstrução nasal reduz a captação pelo vomeronasal.
Benefícios comportamentais do uso responsável
Quando usada de forma moderada e em gatos que respondem bem, a valeriana pode trazer benefícios reais ao bem-estar felino, especialmente para gatos de apartamento que precisam de mais estímulo ambiental.
Estímulo para brincadeira e exercício
A fase ativa induz corrida, saltos e brincadeira intensa, o que ajuda no gasto energético de gatos sedentários. Para gatos acima do peso, a valeriana pode ser uma aliada na promoção de atividade física, sempre associada a uma dieta balanceada recomendada pelo veterinário.
Redução de tédio e estresse
Gatos confinados em ambientes pequenos tendem a desenvolver comportamentos compulsivos ou apatia. Inserir a valeriana em sachês, brinquedos recheáveis ou almofadinhas permite sessões previsíveis de enriquecimento sensorial.
Facilitação de associações positivas
Veterinários e etólogos recomendam associar a valeriana a objetos novos, como camas, caixas ou arranhadores, para que o gato crie vínculo com o item. É o mesmo princípio usado em protocolos de dessensibilização ambiental.
Auxílio em situações de mudança
Mudanças de casa, introdução de novos móveis ou visita ao petshop podem causar estresse. Oferecer a valeriana 15 minutos antes de um evento estressor, quando o gato responde à planta, pode ajudar a reduzir a reatividade, embora essa conduta deva ser orientada por profissional de comportamento animal.
Como oferecer valeriana ao gato com segurança
A forma de apresentação e o local de uso fazem diferença tanto na intensidade da resposta quanto na segurança do pet. Veja as recomendações mais aceitas.
Formas comerciais mais comuns, Raiz seca inteira ou cortada
vendida em pet shops e casas de ração, é a apresentação mais potente, pois preserva os óleos voláteis. Pó de raiz de valeriana: mais fácil de espalhar em brinquedos de pano, mas perde aroma mais rápido. Spray de valeriana: solução com extrato diluído, útil para borrifar em arranhadores ou caminhas. Atenção à composição, prefira produtos sem álcool ou corantes. Brinquedos recheados com valeriana: práticos, duráveis e com controle da quantidade exposta.
Boas práticas de uso, Ofereça em sessões curtas, de 5 a 15 minutos. Não force o
contato, deixe o gato se aproximar no próprio ritmo. Guarde a raiz seca em recipiente fechado e ao abrigo da luz, para preservar os voláteis. Use preferencialmente em superfícies fáceis de limpar, pois o gato pode babar bastante. Supervisione o uso em gatos que costumam ingerir objetos não alimentares. Lave as mãos após manusear, especialmente antes de tocar o rosto.
Quem deve evitar
Gatos com histórico de convulsões, gestantes, lactantes, filhotes muito novos e gatos em tratamento com medicamentos sedativos ou ansiolíticos devem usar valeriana somente com orientação veterinária. A planta pode potencializar efeitos de certos fármacos, e a interação medicamentosa não está totalmente mapeada em todas as classes.
Possíveis efeitos adversos e quando se preocupar
A valeriana é considerada segura para a maioria dos gatos quando usada de forma esporádica e em pequenas quantidades, mas existem efeitos adversos possíveis que merecem atenção. Vômito ou diarreia: ocorrem quando o gato ingere grande quantidade da planta ou do produto. Salivação excessiva: comum durante a fase ativa, mas deve cessar em até trinta minutos. Agitação prolongada: se durar mais de 30 minutos sem transição para relaxamento, vale registrar em vídeo e mostrar ao veterinário. Reações alérgicas: raras, mas possíveis, manifestando-se como espirros, coceira ou edema facial. Interação medicamentosa: potencialização de sedativos ou alteração da metabolização de alguns fármacos hepáticos.
Se o seu gato apresentar qualquer sinal que fuja do padrão descrito neste artigo, procure atendimento veterinário. Gatos são mestres em esconder desconforto, então tutores atentos fazem diferença.
Quando procurar o veterinário
Mesmo sendo um produto natural e de venda livre em muitas lojas, a valeriana pode não ser indicada para todos os gatos. Procure orientação veterinária, de preferência de um profissional com registro ativo no CRMV-BR, nas seguintes situações:
- Seu gato tem doenças neurológicas.
- hepáticas ou renais.
- Está em uso de qualquer medicação contínua.
- É idoso.
- filhote.
- gestante ou lactante.
- Apresentou reação estranha em exposições anteriores.
- Você pretende usar a valeriana como ferramenta em protocolo comportamental.
- Quer combinar valeriana com catnip ou outras ervas.
Lembre-se de que comportamento alterado pode indicar dor, estresse ou doença clínica, e não apenas resposta à planta. Variações súbitas de atividade, apetite, uso da caixa de areia ou interação social sempre justificam consulta.
Perguntas Frequentes
Valeriana para gatos funciona em todos os felinos?
Não. A resposta depende de fatores genéticos, idade e estado de saúde. Estimativas indicam que entre 50 e 75 por cento dos gatos apresentam algum grau de reação visível à valeriana, enquanto os demais permanecem indiferentes. Filhotes com menos de três meses geralmente não respondem, mesmo que carreguem o gene responsável pela sensibilidade.
Qual a diferença entre valeriana e catnip?
São plantas diferentes, embora com efeitos comportamentais parecidos em gatos sensíveis. O catnip é a Nepeta cataria, com composto ativo principal chamado nepetalactona. A valeriana é a Valeriana officinalis, com actinidina e ácidos valerênicos como compostos ativos. A valeriana costuma ter aroma mais intenso e desagradável para humanos, e pode provocar reação mais forte em alguns gatos.
Posso dar valeriana todos os dias para o meu gato?
Não é recomendável. O uso frequente pode reduzir a sensibilidade do gato à planta e não traz benefício adicional. O indicado é oferecer a valeriana duas a três vezes por semana, em sessões curtas, para preservar o efeito e evitar ingestão excessiva. Em casos de uso terapêutico comportamental, a frequência deve ser definida por veterinário especializado.
Valeriana para gatos é segura?
Em doses pequenas e ocasionais, é considerada segura pela maioria das referências em medicina veterinária integrativa, como o MSD Veterinary Manual e a AAFP. Ainda assim, gatos com condições clínicas específicas ou em uso de medicação contínua precisam de orientação veterinária antes do uso. Não substitua tratamento prescrito por uso de plantas sem supervisão profissional.
Onde comprar valeriana para gatos?
A raiz seca de valeriana é vendida em pet shops, casas de produtos naturais e lojas online especializadas em enriquecimento felino. Prefira fornecedores que informem a procedência, lote e ausência de aditivos químicos. Brinquedos e sprays prontos também estão disponíveis, mas verifique a composição para garantir que não contêm álcool, corantes ou essências sintéticas potencialmente irritantes.
Conclusão
A valeriana para gatos é uma ferramenta interessante de enriquecimento ambiental e comportamental, com mecanismos de ação parcialmente sobrepostos aos do catnip e alguns diferenciais próprios. Ela pode promover atividade física, reduzir tédio e ajudar em momentos de mudança, desde que oferecida em sessões curtas, com produtos de procedência confiável e respeitando o perfil individual de cada gato.
Por outro lado, não é solução universal: parte dos gatos simplesmente não responde, e os que respondem podem ter efeitos adversos se houver uso excessivo, ingestão grande ou interação medicamentosa. O caminho mais seguro é usar com moderação, observar o animal e manter o veterinário informado sobre qualquer prática que envolva a saúde e o comportamento do pet.
Se este conteúdo ajudou você a entender melhor o efeito da valeriana no seu gato, compartilhe com outros tutores e continue acompanhando o blog para mais guias sobre enriquecimento felino, comportamento e saúde dos gatos.
Referências consultadas
AMERICAN ASSOCIATION OF FELINE PRACTITIONERS (AAFP). Feline Environmental Needs Guidelines. Acesso em 2026., PLUMB, D. C. Plumb’s Veterinary Drug Handbook. 9ª ed. Wiley-Blackwell, 2018., MSD VETERINARY MANUAL. Valeriana officinalis: overview of herbal use in animals. Acesso em 2026., CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA (CFMV) e CRMV-BR. Resolução sobre responsabilidade técnica e orientação ao tutor. TOTTEN, M. Catnip and the cat: a study of the response to Nepeta cataria. Veterinary Medicine publications. INTERNATIONAL SOCIETY FOR APPLIED ETHOLOGY. Sensory enrichment in domestic cats. ABMVET (Associação Brasileira de Medicina Veterinária). Boas práticas em medicina integrativa veterinária. WSAVA (World Small Animal Veterinary Association). Guidelines on nutritional and behavioral management.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Valeriana para gatos funciona em todos os felinos?
Não. A resposta depende de fatores genéticos, idade e estado de saúde. Entre 50 e 75 por cento dos gatos apresentam reação visível à valeriana, enquanto os demais permanecem indiferentes. Filhotes com menos de três meses geralmente não respondem, mesmo que carreguem o gene responsável pela sensibilidade.
2. Qual a diferença entre valeriana e catnip?
São plantas diferentes com efeitos comportamentais parecidos em gatos sensíveis. O catnip é a Nepeta cataria, com composto ativo chamado nepetalactona. A valeriana é a Valeriana officinalis, com actinidina e ácidos valerênicos. A valeriana tem aroma mais intenso e pode provocar reação mais forte em alguns gatos.
3. Posso dar valeriana todos os dias para o meu gato?
Não é recomendável. O uso frequente pode reduzir a sensibilidade do gato e não traz benefício adicional. O ideal é oferecer duas a três vezes por semana, em sessões curtas, para preservar o efeito e evitar ingestão excessiva.
4. Valeriana para gatos é segura?
Em doses pequenas e ocasionais é considerada segura pela maioria das referências, como o MSD Veterinary Manual e a AAFP. Gatos com condições clínicas específicas ou em uso de medicação contínua precisam de orientação veterinária antes do uso. Não substitua tratamento prescrito por uso de plantas sem supervisão profissional.
5. Onde comprar valeriana para gatos?
A raiz seca é vendida em pet shops, casas de produtos naturais e lojas online especializadas. Prefira fornecedores que informem procedência, lote e ausência de aditivos. Brinquedos e sprays prontos também estão disponíveis, mas verifique a composição para garantir ausência de álcool, corantes ou essências sintéticas irritantes.
