Higiene das patas do gato: almofadas e unhas
As patas do gato são estruturas anatômicas sofisticadas que vão muito além de uma forma de locomoção. Elas concentram terminações nervosas sensíveis, glândulas sudoríparas, almofadas de absorção de impacto e garras retráteis que o animal utiliza para se defender, escalar, marcar território e manter o equilíbrio. Quando o tutor negligencia a higiene das patas do gato, pequenas sujidades, corpos estranhos ou alterações nas unhas podem evoluir para ferimentos, infecções e até problemas articulares. Este guia reúne informações técnicas, baseadas em diretrizes da WSAVA (World Small Animal Veterinary Association), da AAFP (American Association of Feline Practitioners) e do MSD Veterinary Manual, para ajudar o tutor brasileiro a montar uma rotina segura de cuidado com almofadas plantares e unhas.
O que são as almofadas plantares do gato

As almofadas plantares, também chamadas de coxins plantares, são as regiões macias e geralmente rosadas, pretas ou pigmentadas que ficam na parte inferior das patas do gato. Cada pata dianteira possui sete almofadas: uma grande central chamada de almofada metacarpal ou palmar, quatro almofadas digitais associadas a cada dedo e uma pequena almofada carpal localizada mais acima, no membro anterior. As patas traseiras contam com cinco almofadas, sendo uma metatarsal e quatro digitais (MSD Vet Manual, 2024).
A função dessas estruturas é múltipla. Elas atuam como amortecedores naturais durante o salto e a corrida, reduzem o impacto nas articulações, proporcionam tração em superfícies lisas e funcionam como sensores táteis de alta precisão. A pele que reveste os coxins é mais espessa e queratinizada do que a do restante do corpo, mas ainda assim é vascularizada e rica em terminações nervosas. Por essa razão, qualquer corte, queimadura ou corpo estranho encravado provoca dor intensa no animal.
Anatomia das patas e das unhas

A unha do gato é uma estrutura córnea queratinizada que cresce a partir de um leito ungueal altamente vascularizado e inervado. Diferente dos cães, os gatos possuem garras retráteis: quando relaxadas, elas ficam ocultas por uma bainha de pele, protegidas do desgaste pelo contato direto com o solo. Esse mecanismo é resultado de ligamentos elásticos e da conformação da terceira falange, conforme descrito pelo MSD Veterinary Manual.
Cada unha possui uma parte externa visível, opaca, de cor esbranquiçada ou amarelada, e uma região interna chamada de tecido vivo, rica em vasos sanguíneos e nervos. Cortar além dessa região interna provoca dor e sangramento. Identificar o limite entre a unha queratinizada e o tecido vivo é o passo mais importante da tosa, especialmente em gatos com unhas escuras, nas quais o tecido vivo fica praticamente invisível a olho nu.
A cor dos coxins varia de acordo com a pigmentação da pele do animal. Gatos com pelagem escura geralmente apresentam almofadas pretas, enquanto gatos brancos ou com pelagem clara costumam ter almofadas rosadas. Existem ainda gatos com almofadas mistas, apresentando manchas rosadas e pretas na mesma pata. A pigmentação não interfere na função, mas é um detalhe útil para o tutor avaliar alterações de cor ao longo do tempo, como palidez, vermelhidão excessiva ou manchas suspeitas.
Rotina de higiene das almofadas
A higiene das almofadas começa pela inspeção visual e, se necessário, pela limpeza suave com materiais adequados. O ideal é criar o hábito desde a fase de filhote, pois o gato adulto que nunca teve as patas manipuladas pode reagir com medo ou agressividade quando alguém tenta segurar suas patas. A AAFP recomenda a dessensibilização gradual, com sessões curtas, associadas a reforço positivo, para que o animal aceite o manuseio sem estresse.
Inspeção diária
Em gatos que têm acesso à rua, quintal ou varanda, é prudente inspecionar as patas todos os dias, procurando por pequenos cortes, espinhos, fragmentos de vidro, areia encravada, pulgas, carrapatos ou fezes aderidas. Gatos exclusivamente indoor também precisam de inspeção, embora com menos frequência, já que podem acumular poeira, restos de areia sanitária e pelos soltos.
Limpeza prática
Para a limpeza rotineira, utilize uma gaze ou pano macio umedecido em água morna. Passe suavemente entre os dedos, ao redor de cada almofada e na parte inferior da pata. Evite algodão, pois solta fibras que podem grudar nos coxins. Produtos como lenços umedecidos para humanos devem ser evitados, uma vez que podem conter álcool, perfumes ou substâncias tóxicas. Quando houver necessidade de uso de antisséptico, o tutor deve consultar o médico veterinário, que indicará o princípio ativo e a diluição adequados, conforme orienta o CRMV-BR.
Hidratação dos coxins
Em climas muito secos, ou em gatos com coxins ressecados, é possível aplicar bálsamos veterinários próprios para almofadas, encontrados em pet shops e consultórios. Nunca utilize hidratantes humanos, pois muitos contêm compostos que o gato pode lamber e ingerir, causando desconforto gastrointestinal. A frequência de aplicação varia conforme o produto e a recomendação do veterinário.
Cuidados com as unhas do gato
O cuidado com as unhas envolve três pilares principais: oferecer superfícies adequadas para desgaste natural, aparar quando necessário e observar sinais de alterações ungueais.
Arranhadores e superfícies
O comportamento de arranhar é natural e essencial para a saúde do gato. Ele serve para remover a camada externa morta da unha, marcar território por meio de glândulas presentes nas patas e alongar a musculatura dos ombros e das costas. Disponibilizar arranhadores verticais e horizontais, de diferentes texturas (sisal, papelão, carpete), distribuídos em pontos estratégicos da casa, reduz a probabilidade de o gato destruir móveis e mantém as unhas em um comprimento saudável (WSAVA, 2023).
Quando aparar
A frequência de aparo depende do estilo de vida do animal. Gatos indoor, que não têm acesso a superfícies abrasivas naturais como troncos e cascalho, costumam precisar de aparo a cada duas ou três semanas. Gatos com acesso à rua podem manter as unhas em um comprimento aceitável por mais tempo, embora ainda seja recomendada a inspeção regular, pois o desgaste excessivo pode causar fraturas ou lesões.
A regra geral é aparar quando a ponta da unha começa a curvar-se excessivamente, quando se percebe um som de clique no chão quando o gato caminha em piso duro, ou quando a unha começa a crescer para dentro, em direção ao coxim. Unhas muito compridas podem encravar, causando dor, infecção e dificuldade de locomoção.
Como aparar as unhas com segurança
Aparar as unhas do gato pode parecer simples, mas exige técnica e paciência. Para tutores de primeira viagem, o ideal é pedir uma demonstração ao médico veterinário antes de tentar fazer sozinho. O passo a passo recomendado pela AAFP é o seguinte:
- Escolha um momento tranquilo, em que o gato esteja relaxado, de preferência após uma refeição ou sessão de brincadeira.
- Utilize um cortador próprio para gatos, do tipo tesoura ou guilhotina, com lâmina afiada. Cortadores de unha humanos não são recomendados, pois podem esmagar a unha em vez de cortá-la.
- Segure a pata com firmeza, mas sem apertar, e pressione levemente a almofada para expor a unha.
- Identifique o tecido vivo, conhecido como quick, que aparece como uma área rosada em unhas claras. Em unhas escuras, corte apenas a ponta curva.
- Faça o corte em um ângulo de aproximadamente 45 graus, removendo apenas a ponta afiada.
- Em caso de sangramento acidental, utilize pó hemostático ou farinha de trigo prensada para estancá-lo. Leve o gato ao veterinário se o sangramento não parar em poucos minutos.
Caso o tutor se sinta inseguro, é possível levar o animal a pet shops com serviço de tosa ou ao próprio veterinário, que realizará o procedimento com segurança e poderá avaliar a saúde das patas como um todo.
Problemas comuns nas patas e almofadas
Mesmo com higiene adequada, alguns problemas podem surgir. Conhecer os principais sinais ajuda o tutor a agir rápido e a buscar atendimento veterinário sempre que necessário.
Feridas e cortes
Pequenos cortes podem aparecer após o gato pisar em cacos, superfícies quentes ou após uma briga com outro animal. A limpeza com soro fisiológico e a avaliação veterinária são fundamentais, pois gatos são suscetíveis a abscessos, que se formam quando bactérias penetram por meio de mordeduras ou arranhões e se multiplicam sob a pele.
Unhas encravadas
Unhas encravadas ocorrem quando a unha cresce em direção ao coxim, perfurando a pele. É uma condição dolorosa que pode evoluir para infecção se não tratada. A prevenção passa pelo aparo regular, especialmente em gatos idosos, que tendem a ter as unhas mais grossas e curvadas.
Dermatite das almofadas
A dermatite que afeta os coxins pode ter causas alérgicas, infecciosas ou autoimunes. Segundo o MSD Veterinary Manual, doenças como o plasmocitoma cutâneo, a dermatite actínica e o complexo penfigoide podem afetar exclusivamente as almofadas plantares. Os sinais incluem vermelhidão, inchaço, descamação, ulceração e dor ao toque.
Fungos e bactérias
Em ambientes úmidos ou após contato prolongado com água suja, as almofadas podem desenvolver infecções fúngicas ou bacterianas. O tratamento, conforme orientação do CRMV-BR, exige diagnóstico veterinário e uso de medicação apropriada, geralmente tópicos ou sistêmicos.
Queimaduras
Em dias muito quentes, o asfalto e o concreto podem atingir temperaturas elevadas o suficiente para queimar as almofadas. Gatos com acesso à rua devem ser monitorados em horários de calor intenso. Queimaduras aparecem como áreas avermelhadas, com bolhas ou até tecidos necrosados, e exigem atendimento veterinário imediato.
Quando procurar o veterinário
O tutor deve procurar o médico veterinário sempre que observar sinais como claudicação (manqueira), lambedura compulsiva das patas, inchaço, vermelhidão intensa, secreção, mau cheiro, sangramento que não cessa, mudança repentina na coloração dos coxins, unhas que crescem com coloração ou formato anormais, ou qualquer alteração comportamental que indique dor. Conforme orienta o CRMV-BR, somente o veterinário está habilitado a diagnosticar e tratar doenças em animais, e a automedicação é perigosa tanto para o gato quanto para o tutor, que pode ser responsabilizado em casos de intoxicação.
A consulta regular, pelo menos uma vez ao ano para gatos jovens e adultos e a cada seis meses para gatos idosos, é a melhor forma de prevenir e detectar precocemente qualquer problema nas patas. Exames de rotina podem incluir avaliação da marcha, inspeção dos coxins, palpação das articulações e, quando necessário, exames complementares como radiografias e citologias.
Tabela comparativa: problemas comuns nas patas
| Problema | Sinal principal | Causa mais frequente | Ação imediata |
|---|---|---|---|
| Corte ou ferida | Sangramento, dor | Vidro, briga, objeto cortante | Limpar com soro e levar ao veterinário |
| Unha encravada | Unha curvada para dentro, dor | Falta de aparo | Aparo corretivo e consulta |
| Dermatite | Vermelhidão, descamação | Alergia, infecção, autoimune | Consulta veterinária |
| Queimadura | Bolhas, vermelhidão intensa | Asfalto quente, produtos químicos | Resfriar e buscar atendimento |
| Fungo/bactéria | Mau cheiro, secreção | Umidade, ambiente sujo | Higiene e tratamento veterinário |
| Abscesso | Inchaço, dor, febre | Mordedura, arranhão infectado | Drenagem e medicação |
Perguntas Frequentes (FAQ)
Preciso aparar as unhas do meu gato se ele tem arranhador?
Sim, em muitos casos. O arranhador ajuda a remover a camada externa da unha e a manter as garras afiadas, mas nem sempre é suficiente para controlar o comprimento total. Gatos indoor, especialmente os mais velhos, podem desenvolver unhas longas que se curvam em direção ao coxim. A combinação de arranhador e aparo regular é o que oferece o melhor resultado, sempre respeitando as recomendações do veterinário.
Com que frequência devo limpar as almofadas do meu gato?
Para gatos que vivem exclusivamente dentro de casa, a limpeza pode ser feita semanalmente ou a cada quinze dias. Gatos com acesso a áreas externas se beneficiam de inspeção diária e limpeza sempre que necessário. O importante é criar uma rotina e manter as patas sempre visíveis, para que qualquer alteração seja percebida rapidamente.
Posso usar lenços umedecidos de bebê nas patas do gato?
A recomendação geral é evitar lenços umedecidos humanos, pois podem conter álcool, essências ou conservantes que irritam a pele sensível do gato e podem ser tóxicos se ingeridos durante a lambedura. Existem no mercado lenços específicos para pets, com formulação neutra e apropriada, mas mesmo assim o tutor deve conferir a composição e preferir produtos indicados por veterinários.
Como sei se meu gato está com dor nas patas?
Sinais de dor nas patas incluem claudicação, relutância em saltar, postura curvada, lambedura excessiva da região, mudanças de comportamento, irritabilidade, agressividade ao toque e até alterações no apetite. Gatos são experts em esconder dor, então qualquer mudança sutil de comportamento merece atenção. Ao notar um ou mais desses sinais, procure o veterinário para avaliação clínica.
É normal o gato ter almofadas de cores diferentes?
Sim. A cor dos coxins varia de acordo com a pigmentação da pele do animal e do padrão de pelagem. Gatos bicolores ou com pelagens variadas podem apresentar coxins manchados, com áreas rosadas e pretas. O importante é monitorar se há mudanças ao longo do tempo, como o surgimento de manchas novas, descamação ou áreas que se tornam pálidas, o que pode indicar problemas circulatórios ou dermatológicos.
Conclusão
A higiene das patas do gato é um cuidado simples, mas que faz diferença significativa na saúde e no bem-estar do animal. Conhecer a anatomia dos coxins e das unhas, criar uma rotina de inspeção, oferecer arranhadores adequados e aparar as unhas com técnica são práticas que previnem desconfortos, dores e doenças mais graves. Lembre-se de que nenhum cuidado doméstico substitui a avaliação periódica do médico veterinário, profissional habilitado a diagnosticar alterações e a orientar tratamentos seguros. Com paciência, reforço positivo e atenção aos sinais que o gato apresenta, é possível manter as patas saudáveis e funcionais por toda a vida do felino.
Referências consultadas
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WSAVA. Global Veterinary Guidelines for Companion Animal Welfare. World Small Animal Veterinary Association, 2023. Disponível em https://wsava.org. Acesso em julho de 2026.
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AAFP. Feline Life Stage Guidelines. American Association of Feline Practitioners, 2021. Disponível em https://catvets.com. Acesso em julho de 2026.
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MSD Veterinary Manual. Structure and Function of the Skin in Cats. Merck Sharp & Dohme, edição de 2024. Disponível em https://msdvetmanual.com. Acesso em julho de 2026.
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CRMV-BR. Responsabilidade técnica e orientação ao tutor. Conselho Federal de Medicina Veterinária. Disponível em https://crmv.gov.br. Acesso em julho de 2026.
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ABMVET. Boas práticas em medicina felina. Associação Brasileira de Medicina Veterinária, 2022. Disponível em https://abmvet.org.br. Acesso em julho de 2026.
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CBRO. Guia de cuidados com felinos domésticos. Colégio Brasileiro de Reprodução e Obstetrícia Veterinária, 2023. Disponível em https://cbro.com.br. Acesso em julho de 2026.
Disclaimer: este conteúdo tem caráter informativo e educativo, não substituindo a consulta, o diagnóstico e o tratamento realizados por médico veterinário habilitado. Conforme regulamentado pelo CRMV-BR, apenas o profissional veterinário pode prescrever medicações e conduzir procedimentos clínicos em animais. Em caso de dúvidas ou alterações na saúde do gato, procure sempre um veterinário de confiança.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Preciso aparar as unhas do meu gato se ele tem arranhador?
Sim, na maioria dos casos. O arranhador ajuda a remover a camada externa morta da unha e mantém a ponta afiada, mas nem sempre é suficiente para controlar o comprimento total, especialmente em gatos indoor e idosos. A combinação de arranhador e aparo regular é a mais recomendada, sempre com orientação veterinária.
2. Com que frequência devo limpar as almofadas do meu gato?
Para gatos exclusivamente indoor, a limpeza pode ser feita semanalmente ou quinzenalmente. Gatos com acesso a áreas externas se beneficiam de inspeção diária e limpeza sempre que necessário. O essencial é manter as patas visíveis e rotineiramente avaliadas para identificar qualquer alteração precocemente.
3. Posso usar lenços umedecidos de bebê nas patas do gato?
A recomendação geral é evitar lenços umedecidos humanos, pois podem conter álcool, perfumes e conservantes que irritam a pele e podem ser tóxicos se o gato lamber a região. Existem lenços específicos para pets, com formulação apropriada, mas mesmo assim o tutor deve preferir produtos recomendados por veterinários.
4. Como sei se meu gato está com dor nas patas?
Sinais comuns incluem claudicação, relutância em saltar, postura curvada, lambedura constante da região, irritabilidade e mudanças no apetite. Gatos escondem dor com facilidade, então qualquer mudança sutil de comportamento merece atenção e avaliação veterinária.
5. É normal o gato ter almofadas de cores diferentes?
Sim, a coloração dos coxins varia conforme a pigmentação da pele do animal e pode incluir áreas rosadas, pretas ou manchadas. O importante é monitorar mudanças ao longo do tempo, como palidez, vermelhidão ou surgimento de manchas novas, que podem indicar problemas circulatórios ou dermatológicos.
Aviso: este conteudo e informativo e nao substitui consulta com medico veterinario registrado (CRMV). Diagnosticos, tratamentos e medicacoes exigem avaliacao presencial de um profissional. Em caso de sintomas ou duvidas, procure um veterinario de sua confianca antes de tomar qualquer decisao sobre a saude do seu gato.
